sábado, março 05, 2005

Short Story

Como sempre, Beatriz esperava que Joana acabasse de se arranjar.
- Não consigo entender a maneira de pensar do Miguel. Não se decide nem para um lado nem para o outro, e eu confesso começar a ficar cansada.
- Tens de ter calma Joana.
- Ter calma! Ter calma! Há um ano e meio que tenho calma.
- Então….
- Dizes isso porque o Alexandre conseguiu ganhar coragem e dizer que queria namorar contigo, ou ter uma relação ou lá o que foi. Agora o Miguel … é desesperante. É incrível, tão depressa me abraça e diz que sente a minha falta, como me trata de forma tão indiferente como se me tivesse conhecido a semana passada.
- Passada andas tu e atrasadas estamos nós, aliás como sempre por tua culpa.
- Está bem, está bem! Já estou pronta.
E lá saíram as duas a correr.
Como sempre eles já estavam no restaurante à espera delas, e também como já era habito, Bea foi presenteada com uma linha rosa vermelha.
- Sim senhor! Assim dá gosto. – disse Joana, olhando Miguel de soslaio.
Este fingiu não ver.
A meio do jantar, Miguel pediu a atenção dos seus companheiros.
- Joana - disse com um ar meio comprometido – tenho uma proposta para te fazer.
Esta olhou Bea e sorriu. Talvez tivesse falado antes de tempo.
- Escuta-me até ao final, e depois dá-me a resposta . se precisares de tempo para pensares, tens o que for necessário, claro.
Miguel tinha um ar tão sério que Bea começou a ficar preocupada, mas como Alex sorria de forma tão encorajadora, não devia ser caso disso.
- Bem, - disse Miguel, antes de dar mais um trago no vinho e respirar fundo –apesar de Bea e Alex se terem entendido, - continuou sorrindo para o casal, - eu continuo sem estar muito tempo em casa e os meus pais não conseguem entender porque chego tão tarde, nem o que faço todas as noites convosco. Eu sei que parece ridículo, mas para o meu pai tinha imensa lógica eu sair com o Alex e só voltar de manhã. Mas agora, que a Bea faz parte da vida dele, passa a vida a dizer que ando sempre atrás dele e que devia era de ter vergonha.
Interrompeu-se uma vez mais e olhou o seu amigo, que sorrindo lhe fez sinal para seguir em frente.
- Joana, o que eu te queria pedir era …. Bem , fingíamos que éramos namorados, isto é, ias lá a casa e eu apresentava-te como tal. Eles iam adorar, porque gostam imenso de ti, e és a única pessoa que conheço que … - disse, num tom hesitante – é só fachada para os meus pais, não temos de ….
Joana olhou para ele de boca aberta, enquanto Bea e Alex, completamente perplexos, sobretudo este último que não parava de o fixar.
Levantou-se e disse:
- Tu só podes estar a brincar comigo. Não achas um tanto cedo para pregares uma partida de Carnaval?!
E dizendo isto saiu. Bea seguiu-a imediatamente.
Joana preparava-se para se enfiar num táxi, quando Bea lhe pegou no braço.
- Onde vais?!
- Onde vou ?! Embora, lógico. Que achas !?!
- Acho que deves acalmar-te primeiro. Afinal não é assim tão grave.
- Das duas uma, ou vocês estão todos doidos, ou eu estou. Não é grave !?
- É um princípio. Talvez ele esteja confuso e queira fazer uma espécie e experiência. Ele gosta de ti, eu sei.
- Mas eu por acaso sou algum rato de laboratório, para me fazerem experiências? Acho-te uma piada. Queria ver se fosse o contrário ?!
- Talvez aceitasse. Entrava no jogo, e depois de lá estar era muito mais fácil mudar-lhe as regras, e passar da mentira para a verdade. Podes dar a volta á situação muito mais facilmente do que sendo só amigos. Pensa bem, pelo menos aos olhos da família é verdade .Tens de concordar comigo que é meio caminho andado.
Joana olhou Bea que sorria maliciosamente.
- Talvez tenhas razão – disse, sorrindo como se tivesse atingido o raciocínio da amiga.
- Tu sabes bem como fazer as coisas, certo?
- Certo !
Regressaram ambas à mesa. Miguel estava de cabeça baixa e Alex fumava um cigarro.
- Consegui impedi-la de ir embora. Mas foi por pouco. Tens de me agradecer Miguel.
Ele levantou a cabeça e sorriu tenuemente.
- Miguel – disse Joana suave , mas determinadamente. – Eu pensei melhor e decide aceitar a tua proposta. Afinal para que servem os amigos, não é verdade?
Miguel sorriu animadamente, enquanto se levantava para dar um grande beijo nela.
- Juras?! Joana és simplesmente fantástica. Obrigado.
- Mas … calma. Temos de acertar uns pequenos detalhes.
Ele parou de sorrir ficando mesmo muito sério.
- Detalhes!? Que tipo de detalhes?
- Bem, uma vez que é tudo a fingir, eu tenho toda a liberdade. Ou seja não tens controle sobre a minha vida e tens sempre de me avisar com alguma antecedência quando tiver de ir a tua casa. Posso ter coisas combinadas que não possam ser desmarcadas, certo?
- Então e se combinarem um jantar a meio da tarde?
- Podes correr o risco de não me teres. Não sei, inventa uma desculpa qualquer. É pegar ou largar!
Miguel ficou pensativo por uns instantes.
- Se é tudo a fingir, não percebo porque hesitas. – disse Bea , num tom irónico.
- Tens razão, não tenho direito nenhum sobre a tua vida. Negócio fechado. – disse esticando a mão.
E, levantando o copo propôs um brinde aos quatro.
Enquanto regressavam a casa, Bea e Joana não paravam de discutir tácticas para dar a volta à situação.
- Viste como ele ficou com a tua proposta?!
- Vi … - respondeu num tom desanimado. – Gostava de poder estar tão confiante como tu.
- Quem te ouvir falar pensa que estás perdidamente apaixonada por ele.
- Quem sabe …..


Tinham passado duas semanas quando Miguel telefona a Joana.
- Este sábado podes vir almoçar a minha casa?
- Este sábado?... – disse num tom pensativo – Espera, deixa-me ver.
Demorou alguns instantes, até que respondeu negativamente, já tinha um compromisso para o almoço.
- E jantar, podes? – insistiu.
- Talvez. – hesitou um pouco – Sim , sim posso. A que horas me vens buscar?
- Às sete e meia.
- Não, espera. Eu vou ter a tua casa. É melhor, como o almoço talvez se prolongue, posso não ter tempo de vir a casa e assim sigo logo.
- Mas eu posso ir te buscar onde quer que estejas. – disse intrigado.
- Não vale a pena Miguel.
- Tudo bem , como queiras. Então às oito em minha casa.
Quando finalmente sábado chegou, Joana estava excitadíssima.
- Até parece que é um jantar de noivado. Além do mais já conheces os pais dele.
- Sim, mas agora é diferente, sou a namorada do filhinho querido.
- Não te esqueças que é só a fingir – disse Bea para a irritar.
- Veremos por quanto tempo – respondeu Joana, sorrindo.
Foi o pai dele quem abriu a porta.
- Espero não ter vindo cedo demais.
- Não, não. A Joana nunca vem cedo demais.
- Onde está o Miguel?
- Foi lá abaixo à adega escolher o vinho. Queres ir lá ter com ele?
- Primeiro vou falar a Dª Ana.
Foram até à cozinha . Depois dos devidos cumprimentos, Joana elogiou o odor que saía do forno.
- É arroz de pato – disse a docemente – O Miguel disse que gostava bastante.
- É verdade, obrigado pela honra.
Dª Ana desviou a atenção do forno para observar Joana. Sorriu-lhe. Estava muito contente na escolha de Miguel.
Entretanto alguém abriu a porta que dava para o terraço. Eram Alex e Bea.
- Pode-se entrar? – disse Alex em tom brincalhão.
- Claro! – respondeu o pai do Miguel. – Tu és da casa. Aliás agora são todos da casa!
Joana ficou admirada com a presença de ambos.
- Não me tinha dito que também vinhas, Bea. Grande amiga que eu tenho.
- Só os convidei há bocado. – disse Miguel , enquanto pousava as garrafas em cima da mesa. – Não comeces já a refilar – pediu sorrindo.
Este sorriso foi seguido por um abraço e um beijo que deixaram Joana com um aperto no peito. Não pode deixar de achar estranho a ternura e até a intimidade do próprio beijo.
- Pai achas que chegam? – disse apontando para as garrafas.
- Acho que sim. Mas s não chegarem há lá mais. Espero que a minha futura nora seja um bom copo.
Joana corou. Não só de vergonha, mas também de satisfação. Soube-lhe mesmo bem ouvir aquela expressão. Futura nora!
Alexandre pegou numa das garrafas e exclamou:
- Deve ser uma ocasião muito especial, para teres escolhido estas!
- Claro que é. A partir de hoje a Joana faz oficialmente parte desta casa. Não achas importante?!
- Sim, sim , claro – respondeu rindo.
- Bem, podem ir entrando, o jantar está pronto. – disse a Dª Ana.
Seguiram uns atrás dos outros, e depararam com uma mesa magnificamente bem decorada.
- Isto hoje até dá direito ao faqueiro de prata e aos copos de cristal – murmurou Alex ao ouvido de Bea.
A meio da refeição, o pai de Miguel levantou-se exclamou :
- Proponho um brinde ao novo casal. Que a vida lhes sorria todos os dias e que a felicidade os inunda todas as horas.
Brindaram animadamente, e Miguel pegou na mão de Joana beijando-a.
Ela olhou-o fixamente e viu qualquer coisa de estranho, um brilho talvez, mas não conseguiu perceber.
- Joana quero que saiba que será sempre bem recebida nesta casa quer ele esteja quer não. Nós já gostávamos muito de si quando era apenas amiga do nosso filho, mas quando ele nos confidenciou o que sentia por si e depois nos contou que … Não faz ideia o quanto ficamos felizes.
- Ela faz, pai. Faz porque sabe o quanto me faz feliz a mim por estar ao meu lado – disse Miguel pondo-lhe o braço por cima e aconchegando-a para ele – Sabes, não sabes?
Ela olhou espantada. Sinceramente, não sabia. Aliás já não sabia mais nada e achava que nada fazia sentido.
- Acho que sim – respondeu um pouco a medo.
- Então para que tenhas a certeza tenho uma surpresa para ti. – dizendo isto levantou-se para tirar uma caixa de dentro do bolso. – Isto não significa nem um quarto do que sinto por ti, das saudades que tenho quando te quero ter ao meu lado e não posso.
Abriu a caixa e tirou uma aliança, simples, mas linda.
Joana de boca aberta olhava a aliança. Era sem duvida um anel de noivado.
- Mas…
- Eu sei que e um pouco precipitado e que não estavas à espera, mas quando a vi não resisti. Achei que ia ficar impecável no teu dedo. Claro que temos ainda um caminho a percorrer até que se alcance o significado que tem, mas já não falta tudo. Que me dizes?
- Miguel, eu não tenho palavras. Confesso que estou completamente baralhada, sobretudo depois do que conversamos….
- Esquece o que conversamos e ouve apenas o que eu te disser hoje e aqui. Vem comigo lá fora.
Pediram licença e saíram.
- Miguel, que espécie de brincadeira é esta agora? Explica-me porque …….
- Joana, eu adoro-te, ou melhor amo-te. Só que eu não sou como Alex. Nunca tive muito jeito para estas coisas, percebes? No outro dia no restaurante ia dizer-te tudo o que te disse hoje, mas à última da hora engasguei-me todo e inventei esta história toda.
- Sinceramente não te entendo. Quando estávamos só os quatro engasgaste-te e agora com os teus pais ………
- É estranho, não é ?! Mas foi mais fácil. Se calhar por estar em casa e por eles saberem a verdade, quer dizer o Alex e a Bea.
- Quer dizer que eles sabiam de tudo?! A Bea também!
- Sim, mas prometeram não te dizer nada. Mas ainda não me disseste se ficaste contente ou não.
Joana olhou para ele ,e já com a aliança no dedo, colocou-lhe as mãos à volta do pescoço e disse :
- Eu sempre gostei de surpresas. Ajuda a quebrar a monotonia, quanto a estar contente, acho que contente não é bem o termo. É pouco, muito pouco para expressar o que sinto. Contente, feliz , radiante não são suficientes. Eu amo-te Miguel. Há muito , muito tempo.
E dizendo isto beijou-o como nunca se tinham beijado.





FIM

Parte VI

M. ia em direcção ao apartamento deles quando passou por ela um rapaz com um ramo de rosas.
- Desculpe, essas flores são para que apartamento?
- Deixe ver, apartamento 505.Porquê ?
- Porque esse é o meu apartamento. Veja o meu cartão. E são para quem ?
- O cartão só diz M .
- Pois , sou eu.
Depois do rapaz lhe ter dado as flores abriu o cartão que dizia apenas:
“ M. , ainda não sabes que sou eu? O meu nome é … “
Cada vez mais intrigada, M tocou a campainha. Foi B. quem abriu sorridente , mas ainda com um ar estremunhado.
- Bom dia M. Deves querer ver o C. , certo ? Entra.
- Olá . Sim, quero, ele está ? perguntou receosa , e já ligeiramente arrependida desta decisão.
- Está, tens é de esperar um pouco , acabou de entrar no banho. Vocês ontem esqueceram-se das horas, foi? – disse rindo. – Bem, vou-me vestir.
Pelos vistos, C também tinha voltado tarde para casa. Pousou as flores e começou a dar voltas pela sala. Viu um recado de C. em cima da mesa. A letra era bastante parecida com a do cartão, apenas algumas diferenças aqui e ali.
Uma porta abriu-se e C entrou na sala de cabelo molhado e apenas com a tolha à volta da cintura. Algumas gotas escorriam do cabelo pelo peito, terminando na dobra da toalha. M. ficou paralisada.
- Que queres? – perguntou C.
- Bom dia!
- Que fazes aqui? Vieste trazer-me flores? – perguntou num tom algo irónico.
- Bom dia !
- Bom dia !
- Assim está melhor . Não , não vim trazer flores, aliás acabei de recebê-las.
- E então já sabes quem tas manda?
- Tenho uma suspeita!
- Será aquele teu amigo de ontem à noite?
- Qual amigo ?
- Não disfarces. Sabes bem.
- Não estou a disfarçar! De quem estás a falar ?
- De ontem, aquele da praia, porquê? Não me digas que existe mais de um amigo com quem te encontras às escondidas de todos.
- Claro que não me encontro com ninguém ás escondidas. Só podes estar a falar de D. É um velho amigo e colega. Já foi namorado de S. , mas como podes saber que estive com ele ?
- Ia a passar e vi-te ir para a praia com ele.
- Agora deu-te para me seguires?
- Eu !? Estava ali por acaso, pensei em ir à discoteca, mas como vos vi acabei por voltar para trás. Mas, vieste aqui para saber onde estive ontem à noite?
- Não, é claro que não. Vim para falar calmamente contigo, acho que te devo isso. Acho que me devo a mim também.
- Estou à espera.
- No outro dia na praia, houve coisas que te devia ter dito, e se calhar também te devia ter ouvido.
- Eu tentei, mas tu não deixaste.
- Eu sei, por isso estou aqui hoje. Para que tu entendas a razão porque fiquei tão zangada. A forma como eu descobri tudo, deixou-me bastante mal. Tu não tens culpa de nada e quase que te castigava a ti.
- Se não quiseres falar mais nesse assunto por mim tudo bem.
- Mas eu quero, quero que saibas. As coisas comigo e com R não iam bem, mas nunca pensei que chegassem a este ponto. Com o final do ano à porta eu comecei a preocupar-me com as notas, e pensei que fosse por isso, por falta de atenção, que a atitude dele tivesse mudado, mas era obvio que não.
No dia em que saíram as notas e vi o vinte a francês, resolvi correr para casa dele para lhe contar a novidade. Quando lá cheguei a mãe dele disse-me que não tinha sequer almoçado em casa. Foi então que fui para minha casa, à espera que R aparecesse. Mal entrei em casa , achei estranho vir barulho do meu quarto, quer dizer, um CD dos meus a tocar, mas como T , gostava bastante deveria ser ela que estava a ouvir. Abri a porta, e ali estavam os dois pombinhos!
Fiquei sem consegui mexer um único músculo, mas assim que consegui sai dali para fora. O pior da questão é que T vive comigo, com os meus pais.
- E nunca os ouviste? Nunca quiseste saber porque é que tudo começou?
- Claro que não. Percebes agora o porquê de eu não querer que toda a gente saiba ?
- Sim e não. Continuo sem saber porque não me deixaste falar também.
- C., estou aqui para te ouvir, também. – disse, aproximando-se mais dele.
- O que eu tinha, ou melhor, tenho para te dizer é muito simples. Estas férias pude conhecer alguém espectacular, simpática , inteligente, mas muito teimosa. Não sei como chegar até ela , fazê-la entender que gosto muito dela.
M ficou decepcionada. Agora as palavras de B faziam sentido, pela conversa dele C tinha vindo dormir tarde, e eles pensaram que era com ela que tinha estado, mas não. Conheceu alguém. Elas tinham razão, C não era para se deixar sozinho. Tinha perdido a sua oportunidade por causa da sua teimosia e do seu orgulho.
- Quando te ajudava a esquecer R , fui aprendendo algumas coisas acerca de vocês , raparigas, nunca foi o meu forte, deixo sempre esses assuntos para K. Não te queria magoar… não te quero magoar. Se no início achava que seria insuportável, agora acho-te formidável.
- “ Formidável , não é o mesmo que espectacular!” – pensou M , tristemente.
- Quero pedir-te um favor, M.
- Todos, diz-me o que posso fazer por ti
- Eu queria dizer a essa rapariga aquilo que sinto por ela, mas tenho receio que diga tudo ao contrário como é meu hábito, será que poderia treinar contigo?
Ela nem queria acreditar, iria ser uma cobaia. Suspirou e acenou afirmativamente.
- Então aqui vai , mas promete-me que se estiver a ser ridículo dizes, certo ?
C encheu os pulmões de ar, tomou coragem e começou.
- M. , quero que saibas que te adoro, não sei como vou estar sem ti, e que desde o primeiro jantar não paro de pensar em ti. – olhou para ela e depois de hesitar alguns segundos beijo-a.
- Não precisavas ser tão realista. - disse M, ainda não refeita da emoção. Conseguia ser melhor do que o que ela imaginava. Mas não seriam para ela todos os beijos maravilhosos que aquela boca daria.
- Claro que precisava. Será que não entendeste que era tudo verdade?!
- Verdade ! Mas verdade como ?
- Verdade, verdadeira. Tonta, era de ti que falava, é de ti que gosto, é contigo que sonho todas as noites. As flores eram minhas , pensei ter possibilidades, mas tinha ainda algum receio que gostasses de R.
- Enganaste. Desde que te vi na estação nunca mais consegui tirar esses teus olhos verdes da minha cabeça.
C beijou-a de novo , e de novo e uma vez mais. Olhou-a sorrindo abertamente.
- Não imaginas quantas vezes estive para te fazer isto. – e deu-lhe mais um beijo.
- E porque nunca fizeste?
- Porque o fantasma do R. estava sempre por cima das nossas cabeças.
- Agora já não. Que achas de lhes irmos contar?!
- Bem, tenho de me vestir primeiro. – disse C abraçando-a com força. – Adoro-te M.
FIM



segunda-feira, fevereiro 21, 2005

parte V

No dia seguinte M. acordou muito depois delas, e logo choveram mil perguntas.
- Então onde foste? Encontraste o C.? Ele foi logo atrás de ti.
- A que horas viste ? Já fizeram as pazes?
- Parem!! Por amor de Deus. Uma pergunta de cada vez. Primeiro, fui à discoteca.
- Aleluia! Voltaste do mundo dos mortos! – disse A.
- Em segundo lugar fui com o D.
- Com o D.?!? – perguntaram ambas em simultâneo.
- Sim, com o D. , porquê? Não me digas S. que estás com ciúmes!
- Claro que não! Apenas achei curioso. Mas e o C. ?
- Não sei , não quero saber e até prefiro que nem me falem mais dele, para vos ser muito sincera.
- Certo, certo , mas continua. – pediu A.
- Bom, como sabem a discoteca é na praia, e aqueles archotes e as velas e todo aquele ambiente foi verdadeiramente mágico. Acho que ontem encerrei um capitulo da minha vida e sinto-me pronta para começar de novo , sem R. e T. e C. também.
- Está tudo muito certo , mas tens de nos ajudar aqui. Tens a certeza de que não viste o C. ? Ele foi logo atrás de ti …
- Não , não vi e ainda bem.
- Mas , não estavas a começar a gostar dele , quer dizer , passavas o tempo todo com ele e …..
- Estava e não estava. Ah! Vocês sabem como eu sou, um dia acho que sim , e no outro nem por isso!
- Não acredito! – disse A. – Conheço-te bem demais para poder acreditar no que acabas de dizer.
M. olhou para a safada da A. e teve de concordar com ela. A. conhecia-a há muito tempo e sabia que estava a mentir.
- Não posso lutar contra o destino. Não estava previsto ficarmos juntos.
- Isso apenas porque são dois cabeças duras, teimosos que fervem em pouca água. O melhor é tomarem uns calmantes da próxima vez que se encontrarem para poderem falar.
- Não achas que iríamos adormecer ?!!
Todas se riram.
- Que bom! Gosto de te ver assim, feliz. Desde aquele momento com o R que não te via assim .
_ Não me fales no R. por favor .
- Tens de te habituar a ideia de que ele não está mais na tua vida, para o bem e para o mal. – disse S. - O C. , por exemplo, ainda aqui está, por enquanto.
- Também acho. São perfeitos um para o outro. Os oposto atraem-se, minha cara!
- Tal como tu e o K.?
- Exacto. Acho C. o máximo, se não fosse o meu anjo….
- Por mim…
- Não sejas tola. Eu sei que estás mortinha por ir ter com ele e resolverem tudo de uma vez. Admite.
- Pronto , eu admito. Adoro aqueles olhos. Mas tenho medo de me magoar outra vez.
- Quem diz que vais?
- Quem me garante o contrário?!
- M. vou-te dizer uma coisa - disse S. – Eu sei que não percebo nada destas coisas, mas queres saber o que eu acho?
- Quero.
- Tu uma vez, por causa de D. disseste-me que quem não arrisca , não petisca. Pois bem, chegou a hora de eu te dizer o mesmo. Deves arriscar. Assim nunca vais saber.
- E depois ninguém te pode acusar de não ter tentado. – disse A.
- Arrisca. Pior não pode ser, só melhor. Acredita. Depois logo se vê!
- Sê directa e objectiva como sempre. Sabes que podes contar connosco para o que der e vier.
M. levantou-se e abraçou-as.
- Não me façam chorar antes do tempo. Vou tomar banho e depois vou logo falar com ele.
- Assim, sim. Esta é a nossa verdadeira M – disse A.

sexta-feira, fevereiro 18, 2005

Frases Curtas

Amor
" Há apenas uma felicidade na vida: Amar e ser Amado."
George Sand(1804-1876)


" Amar é colocar a nossa felicidade na felicidade do ser amado."
G.W.Leibniz (1646-1716)

" Para obter a plenitude da alegria, deveremos ter com quem partilhá-la."
Mark Twain (1835-1910)

" O meu amor por ti está misturado com o meu próprio ser."
Antiga canção egípcia

" O amor não é senão a descoberta de nós próprios nos outros e o prazer desse reconhecimento."
Alexander Smith(1830-1867)

" Todos nacemos para o amor. É o principio da existência e a sua única finalidade."
Benjamim Disraeli (1804-1881)

" É o amor que me torna audaz e resoluto, é o amor que descobre o caminho onde ele não existe, de todos os Deuses ele é o mais invencível."
Eurípedes(480-406 a.C.)

" O amor não vê com os olhos, mas com o espírito."
William Shakespeare (1564-1616)

" Se não te recordas do minímo disparate em que o Amor te fez cair, então não amaste."
Idem

" Duvidai que as estrelas são fogo; duvidai que o sol se move; duvidai da verdade, como se mentisse; Mas jamais duvideis que eu te amo."
Idem

(Sem título) Parte IV

Estavam todas a jantar quando tocaram a campainha. A. como estava mais perto levantou-se. Mas quando abriu a porta não estava ninguém, no chão apenas um cesto enorme cheio de flores com um cartão que dizia:
“ Para M.”
- São para ti M.
- O quê ? Para mim?
- São lindas. De quem são? – perguntou S.
Devem ser do C. Se pensa que o desculpo só com uma cesta de flores, está muito enganado.
- Acho que estás a ser exagerada , além de muito dura para com ele. Afinal a principal culpada fui eu porque contei.
- Foste e não foste. Está bem, não devias ter dito nada, mas se tu o visses, com aquele ar de bonzinho, é um fingido , isso sim.
- Ai , M. que mania a tua.
- Mania, não. Vocês conhecem-me e sabem que deteste que tenham pena de mim.
- Mas nós só fizemos isto para o teu bem. Nada mais. E tenho a certeza de que ele também quer o teu bem. Acho que o devias ouvir - disse A.
- Já ouvi o que tinha para ouvir. Ele só me quis ajudar porque não tinha mais nada para fazer . Até aposto que quando percebeu que ia ficar sozinho se decidiu mais depressa!
- M. , diz-me sinceramente, tu achas que alguém como C. , com aqueles olhos verdes , ia ser deixado sozinho durante muito tempo ? Achas mesmo ?! – perguntou A , pegando nas mãos dela.
- Podia não ficar sozinho …
- Mas preferiu ficar contigo a ter de escolher entre as outra cento e tal raparigas que por aqui andam. Bolas , M. todos devemos ser modestos , mas tu às vezes és demais !
- Também acho. Tu és óptima, divertida, bonita. Qualquer um te adora - disse
S. abraçando-a.
- O R. não!
- O R. não é ninguém, não conta para nada. – afirmou A. – pára de falar nele. É passado! Concentra-te é no futuro! Um futuro muito verde !
- Está bem, pronto, não é preciso pintarem mais o quadro. Depois de jantar vou falar com ele. – disse rindo-se.
Como sempre, foram para uma esplanada onde era habitual encontrarem-se. Quando chegaram eles já lá estavam.
- C. – disse M. – posso falar contigo? Quer dizer, só nós os dois?!
- Esqueceste-te de alguma barbaridade há bocado?
- C. , por favor , podes ouvir-me? Garanto-te que não é nada disso.
Ele pensou um pouco, olhou para o chão e depois pegou no braço de M e puxou-a para um canto mais escondido.
- Diz!
- Não precisas ser tão…
- Tão, como? Como tu falaste comigo à tarde?
- Não quero que te zangues. Quero só fazer uma pergunta.
- Dispara!
- Foste tu que mandaste as flores?
- Flores?! Que flores?! Não sei do que estás a falar.
- Dum certo cesto que recebi, pensei que tinhas sido tu, como forma de pedir desculpa.
- Desculpa ?! Tu é que me tratas mal e, eu é que tenho de te pedir desculpa?!
M. sentiu o seu orgulho teimoso a crescer de novo. Tinha sido um erro tê-lo chamado ali.
- Só queria saber se tinhas sido tu.
- Não, não fui eu. Satisfeita?
- Sim.
E voltaram para a mesa.
- Já conversaram tudo? - perguntou K. – Foi rápido!
- Não havia muito para conversar – respondeu C. num tom áspero.
- Eh! Lá, isso está mesmo mau por aí. Para quem passava o tempo inteiro quase colados, agora diz que não têm muito para conversar – disse B. – acho estranho.
- Talvez tenhamos esgotado os assuntos. Se não se importam eu vou dar uma volta porque o ar aqui ficou muito abafado. – disse M. enquanto se levantava.
- Fica. – pediu A. pegando-lhe na mão. – Que vais para ai fazer sozinha?
- Pode ser que eu encontre quem me mandou as flores. Quem sabe? Até logo!
Todos responderam menos C.
- De que é que ela estava a falar? - perguntou K.
- Ela recebeu um cesto de flores, e nós pensamos que tinhas sido tu C. – disse S.
- Não. Claro que não. Bem, se não se importam, estou a sentir-me um pouco a mais por isso vou vos deixar à vontade.
- Claro, claro. Quem pensas tu que enganas?! È óbvio que vais ver se a encontras a ela , ou a quem lhe mandou as flores , ou ambos. – disse B., sorrindo e dando-lhe uma palmada nas costas.
- Não esperem por mim.
C tinha a certeza que M tinha ido para aquele caminho por cima da praia e por isso foi até lá.
Entretanto na esplanada …
- Não sei o que deu naqueles dois, estavam a dar-se tão bem ! – disse K.
- É aquele feitio de M. Odeia que tenham pena dela. Sempre foi assim. E depois tem de ser sempre a mais forte, ter sempre a ultima palavra. No fundo é mais sensível do que todos nós.
- E depois toda esta história do R. , a forma como descobriu , deitou-a muito a baixo. Ela adorava-o. – disse S.
- Porque falas no passado? – perguntou B.
- Porque tenho a certeza de que ela gosta de C. Normalmente quando nós falamos de rapazes sabemos distinguir os importantes, e pela maneira como ela fala dele … C. deve ter algo muito especial. – respondeu S.
- São aqueles olhos dele !- disse A. suspirando
- Já começo a ficar com ciúmes – disse K. , sorrindo ao mesmo tempo que a abraçava.
- Não te preocupes , meu anjo, que os teus olhos azuis são mais importantes para mim. – respondeu A. , dando-lhe um beijo.
A praia à noite era quase tão movimentada como de dia. O que era bar de dia, transformava-se numa espécie de discoteca a céu aberto, a o areal estava todo iluminado com archotes e velas.
M. observava os movimentos do alto, pensando em C. e nas suas ultimas palavras. Olhava o mar , agora escuro , mas às vezes tão verde como os olhos de C. “ Realmente sou muito estúpida. Onde é que alguém como ele podia estar interessado em mim?!” , pensava ela.
Não muito distante, este observava-a ela. “ Será que está á espera de alguém e eu aqui a fazer figuras ?!”, pensava ele.
Nisto D. , um colega de M. e antigo namorado de S. aproximou-se.
- M. que fazes por aqui sozinha?
- Nada. Apetecia-me estar longe deles.
- Digo isto porque vos tenho visto sempre com aqueles rapazes de H.B. Eu sei que vocês adoram os corpos musculados dos atletas. Até S. – disse sorrindo.
M. também sorriu
- Não me digas que ainda gostas dela.
- Não, quer dizer apenas como amigo. Não te incomodo, pois não?!
- Claro que não.
- Por acaso não queres ir até lá abaixo comigo, dançar um pouco? Antigamente gostavas …
- Boa ideia, D. Hoje apetece-me dançar e exorcizar todos os meus demónios.
E foram deixando C intrigado.

segunda-feira, fevereiro 07, 2005

Sem titulo Parte III

No final da primeira semana M. quase se tinha esquecido de R. e, por incrível que pareça não tinha tido vontade e pegar num só livro. Para dizer a verdade, C. tinha contribuído bastante para tal. Tinha tomado conta dela por inteiro, se é que se pode dizer, já que A. e S. concentraram as suas energias em K. e B. Andavam numa roda-viva , S. andava nas nuvens, o que para variar não era mau, já que em 95% das vezes andava na Lua; e A. , bem esta nem fazia comentários.
Numa das tardes, decidiram ficar na piscina dos apartamentos, mas M. preferiu ir à praia e claro, C. resolveu ir com ela.
Por um lado ela achou óptimo poder ficar sozinha com ele , mas por outro ….
Assim que chegaram foram logo dar um mergulho. A água estava óptima, e C. aproveitou para fazer umas partidas, ou melhor aproveitou a ocasião para a abraçar.
M. começou a sentir-se enclausurada naqueles olhos. A água a escorrer pelo rosto, a tocar a boca…. Achou melhor ir para a toalha.
C. percebeu a deixa e não insistiu. Afinal não era esse o trato. Mas não era capaz de resistir aquela obstinação que via em M. , tinha vontade de a domar como uma égua selvagem, mas ao mesmo tempo acariciar como uma cria acabada de nascer.
Optaram, “Graças a Deus” – pensou M. , por conversar sobre a escola , as notas , os exames, os amigos, e foi nesta parte que M. começou a ficar pouco à vontade outra vez.
- Que foi M.?
- Nada.
- É por causa de T. ?
- T.?! Que sabes tu de T. ?!!
- Calma!! Até parece que cometi um crime .
- Quem te contou ? – perguntou M. desesperada, não podia acreditar que C. sabia de tudo.
- A. !....
- Quem lhe deu esse direito?
- M. acalma-te e ouve-me , ela só nos pedi….
- Nos !!?? Nos!? Não me digas que andou a contar a toda a gente que andei enganada durante seis meses, dentro da minha própria casa e que foi lá que os encontrei juntos, no meu quarto ??!! – gritou M.
- Não andou a contar a toda a gente. Foi só a nós os três , não precisas de ficar zangada.
- Zangada?! Ainda tu não viste nada. Eu é que devia contar se e quando achasse próprio.
- Espera aí , que história é essa de quarto? – perguntou C. , reflectindo naquilo que acabara de ouvir.
- Não tens nada a ver com isso! – respondeu , enquanto se levantava e preparava para arrumar as suas coisas.
- Tenho sim, quero ajudar-te. Alias, foi para isso que A. nos contou, para ocuparmos o teu tempo e não pensares nisso , para te fazermos esquecer, isto é , para eu te fazer esquecer tudo, mas agora que te conheço….
- Tão bonzinho que eu sou, a ajudar uma pobre rapariga solitária. Não preciso que se incomodem comigo. Não quero a tua ajuda, podes ir-te embora, aproveitar este tempo todo que perdeste comigo. Vai-te embora por favor!
- Deixa-me explicar, por favor.
- Não. A culpa é minha, eu é que sou ingénua demais para acreditar que tu até tinhas simpatizado comigo , que tínhamos algumas coisas em comum e que gostavas de estar comigo. Agora vejo que foi tudo forjado, fingido e que não passa de outra grande mentira.
- E gosto muito de ti ouve-me, por favor! - disse C., obrigando-a a virar-se para ele - Olha para mim!
M . olhou para ele. Queria acreditar nas suas palavras. Mas sabia que não podia. Soltou-se das mãos dele dizendo :
- Por favor não insistas . Se não fores embora vou eu.
- Deixa-te estar, eu vou embora. Mas vais arrepender-te. – disse C. dando-se por vencido.
- Porquê vais te vingar?! Porque raio é que me arrependeria!?
- Não me vingar, não tenho razões para isso, mas sei que te vais arrepender por não me ouvires.
C. arrumou as suas coisas e foi embora. Depois de tomar um duche , deitou-se em cima a cama a pensar em M. Em parte , sabia que talvez não tivesse sido boa ideia ter dito que sabia de tudo, mas também não era preciso ter reagido daquela maneira.
Mesmo depois de tudo, não conseguia deixar de pensar nela. È verdade que quando a viu a achou convencida e antipática, mas depois viu que tudo não passava de uma defesa. Era um pouco como ele. Ela era um ponto de interrogação. Também é verdade que nunca tinha tido jeito com as raparigas, A sua preocupação eram os jogos e as notas e tinha deixado esses assuntos sempre para K. e B. Como é que havia de fazer para ela mudar de ideias e ouvi-lo? E se lhe escrevesse?! Era melhor não , podia não usar as palavras certas outra vez e ela perceber tudo ao contrário. Podia telefonar-lhe?! Quem lhe garantia que não desligava o telefone na cara ??
- Já sei! – gritou ele , e começou aos pulso em cima da cama.
Entretanto K chegou e viu-o assim aos pulos.
- Então, está tudo a correr assim tão bem ?! – perguntou , com uma pontinha de maldade.
- Não. Pelo contrário. Não corre nada. Mas acabei de ter uma ideia brilhante!
- A última brilhante que tiveste pôs a minha mota na oficina.
- Mas desta vez sei que vai dar certo. – e dizendo isto saiu porta fora, sem reparar que apenas tinha uma toalha à volta do corpo.
Passados trinta segundos voltou a entrar dizendo :
- Talvez seja melhor vestir-me primeiro.
K. riu-se e entrou na casa de banho a abanar a cabeça.



segunda-feira, janeiro 24, 2005

Parte II

Ali estavam elas há já alguns minutos, a fingir consultar as tabelas, quando um rapaz saiu do meio do grupo e dirigiu-se a elas, perguntando se precisavam de ajuda. Elas entreolharam-se e riram.
- Obrigada! É que não conseguimos perceber qual é a nossa carruagem. Importas-te de ver? Como és mais alto …. – pediu A.
- Não , de maneira nenhuma. Qual é a vossa escola?
A. estava tão embevecida com os olhos dele, que nem lhe respondeu ; e foi S. quem disse S.V.H.
- Mas, essa é a escola que vai na nossa carruagem, que coincidência! – Hei! Rapazes venham cá!
Outros dois rapazes aproximaram-se, rodeando A. e S. , já que M. afastou-se um pouco.
- Qual é o teu nome? – perguntou o primeiro desconhecido a A.
- A. ,e o teu ?
- N. Mas, para os meus amigos sou K. , e tu podes chamar-me K. pois pressinto que vamos ser grandes amigos. Ele é o B. – disse indicando o rapaz ao lado de S. - e aquele ali , com um ar mal disposto é o C. - anda cá !
Este aproximou-se, mas nada mais disse além de um apagado olá.
Só então A. se lembrou de M. e chamou-a também.
M. chegou-se para mais perto do recém-formado grupo, e como era seu hábito, dispôs-se a observá-los a todos. Ninguém lhe chamou particularmente a atenção, excepto C. Talvez fosse o tom moreno da pele , ou a cor dourada do cabelo, ou até mesmo contraste entre ambos, mas quando este se virou para ela , percebeu que era a energia que emanava dos seus olhos, verdes como o mar profundo e inconstante, sem duvida enigmáticos. E ela gostava de enigmas. Mas não agora!
- Esta é a nossa maior inteligência. Conseguiu ter um vinte e dois dezanoves.- disse A. , orgulhosa da sua amiga.
- O nosso crânio é o C. Acho que se vão dar bem. – disse K.
A conversa foi interrompida pelo apito do comboio e o chefe da estação fez a última chamada pelo megafone.
- Acho melhor juntarmo-nos aos nossos colegas. – disse M.
- Sim, talvez. Até já rapazes! – disse A.
Passados alguns minutos o comboio partia finalmente.
M. passou a maior parte do tempo a ler, espreitando de vez em quando C. , de forma discreta, claro. Este como ela, também lia, uma revista de desporto e saúde, era essa a sua área. Por outro lado, A. e S. conversavam animadamente com K. e B. A revista acabou por ser posta de lado e C. resolveu juntar-se aos seus amigos.
- Então!? Qual é o tema da vossa conversa? – perguntou.
- M. – disse A. , com ar suspeito.
- M.?!?- perguntou C. admirado com a resposta.
- Sim, a amiga delas. – respondeu B.
- Sim , mas porquê ela?
- M. anda um pouco em baixo, por isso esta viagem é tão importante para ela, e daí a termos praticamente obrigado a vir. – disse A.
- Mas, ainda não me disseram qual é o problema dela !
- Ela tinha um namorado…
- R. – disse S.
- Pois, e estiveram juntos quase três anos…
- Dois anos , dez meses e quinze dias , mais precisamente – disse S. com um suspiro – Lembras-te como ela marcava os dias no calendário?!
- È verdade! – concluiu A. – Bem, eles estiveram esse tempo todo juntos, e M. gosta … gostava dele como ninguém. Só que, descobriu há menos de um mês , que não era só ela que gostava dele. Pior, descobriu que não era só ela que namorava que com ele.
- Como assim ?! – perguntou B. , inocentemente.
- Ele tinha outra ?!... – disse K. – È óbvio que ele tinha outra.
- Pois, mas o problema é que a outra é a T. prima de M. e que vive na sua casa! Mais grave, foi a forma como ela descobriu.
- Como foi ? – pergunto B.
- isso não eu vou poder dizer, acho que deve ser ela a contar se o quiser fazer. – disse A.
- Claro, nós entendemos – disse K. , dando uma cotovelada a B. – Mas diz-me uma coisa , que podemos fazer por ela ?
- Para mim , a melhor táctica é ocupar o seu tempo o mais possível , para que não pense em nada relacionado com R. , evitar que leia demasiado , ela faz isso o ano inteiro, mas sobretudo não a deixarmos perceber que estamos a fazer alguma coisa por ela. É que M. tem um feitio desgraçado, e odeia que a ajudem. Podemos contar com vocês ?! – disse S.
- Claro! Não é K. ? – disse B.
- Sim, sim . Também concordas C. , não concordas ?
- Sim. Porque não ?
- Óptimo! – disse A. sorridente. Agora vou chamá-la, mas não se esqueçam de que é segredo! M. ! Vem para ao pé de nós. Deixa esse livro , por favor!
- Que queres A. ?! Sabes que detesto que me interrompam quando estou a ler!
C. levantou-se , fechou-lhe o livro e pegou-lhe na mão.
- Vem, vem sentar-te ao pé de nós, pára de ler , só por um pouco.
- Mas … nem marquei a página….
- Tenho a certeza de que te lembras do número quando voltares a pegar nele. Se voltares. – disse C. , obrigando-a a levantar-se. – Vamos fazer um trato. Durante a primeira semana não lês nem mais uma linha, passas a andar connosco, a fazer tudo aquilo que fizermos. Se não te divertires nem um bocadinho podes voltar aos livros. Concordas ?!
- Bem … Está bem!
- Óptimo! Junta-te aos bons e serás um deles!
M. riu.
- Parabéns C. Conseguiste fazer com que a M se risse. – disse S.
- Então quero um prémio. Hoje jantamos todos juntos! Parece-vos boa ideia ?
Todos concordaram, menos M. que nada disse.
- E tu?! Que dizes ? – perguntou-lhe C.
- Bem, na verdade hoje tinha pensado em não jantar, em ir dormir cedo…
- Nem penses ! Aliás , este jantar quase que é em tua honra, ou melhor em honra do teu sorriso ! – disse–lhe fixando os seus olhos nos dela.
M. ainda pensou em dizer não , mas olhando aquele verde intenso acabou por acenar afirmativamente.
A viagem continuou , com todos brincando e rindo, até M. Esta sentia-se estranha, por um lado estava feliz , aliviada quase que arriscava a pensar. Por outro lado , achava que tinha obrigação em sentir mal, triste, abatida.
C. era divertido, bem disposto, ao contrário do que K. lhe tinha dito tinha um enorme sentido de humor e um sorriso maravilhoso ; e além disso tudo era atraente. Bem, atraente não é bem o termo certo. Era o máximo, era giro , era alto , era …. Muito mais bonito que R. Lá estava o seu pensamento a desviar-se outra vez .
Nada R. Ele de certeza que não estava a pensar nela. Não podia!
Durante o jantar, que correu optimamente bem (se é que isso existe), M. teve de fazer um esforço enorme para evitar olhar pasmada para C.
“Raios!!” – suspirou ela . – “ Mas para que é que eu me meto nestas histórias? Até aposto que sei o final!!”
- Disseste alguma coisa ? – perguntou A. , curiosa
- Não , não disse nada. Estava só a pensar alto!
- Quando pensas muito , não costuma sair coisa boa! Não me digas que estás a pensar no …
- Não! Mas não sei se não faria melhor …..
- Cala-te ! – Não digas disparates M. – sussurrou A., dando-lhe um pequeno beliscão no braço.
- Que se passa meninas? – perguntou K.
- Nada! - respondeu A. pondo-lhe o braço por cima dos ombros – estávamos só a trocar ideias – acrescentou , sorrindo maliciosamente.


sábado, janeiro 22, 2005

Uma simples História de Amor ou uma História de Amor simples

Para quem nunca viveu uma simples história de amor, ou uma história de amor simples; para quem já se esqueceu de como é vivê-la, senti-la, cheirá-la, e até mesmo dos seus sons, todos eles, do mar, do vento, do riso ou daquela música; e ainda para quem nunca se esqueceu daquele momento, que achou ser o mais importante da sua vida, achou nunca ter outro igual, outro momento, outro amor…
(Sem título) Parte I
“Quando M. chegou à estação já lá estavam quase todos os seus colegas.
- Só agora? – Perguntou A. – Eu já cá estou há quase uma hora, eu e S.
- M. tem de manter a tradição de ser sempre a última a chegar – disse S., com o seu costumeiro ar pachorrento.
M., S. e A. eram finalistas. M. é de letras, especialização em línguas estrangeiras, um verdadeiro “bicho do papel”, é também quem elabora todos os planos, quem tem todas as ideias.
A. é de ciências, activa, sempre em busca de novas experiências, novos desafios.
S. é de arte, criativa e imaginativa, transpõe tudo para uma folha de papel, deixa-se, por isso, guiar pelas suas amigas, que são bastante mais praticas.
Tanto S. como A. estavam entusiasmadíssimas com esta viagem. Tratava-se de um prémio para os melhores desempenhos nas cinco áreas, dois alunos por área, por cada escola da capital. Ao todo eram 180 alunos das 18 escolas.
A viagem seria feita no comboio especialmente fretado, até à zona balnear mais requisitada do país. Ficariam quinze dias, sob a vigilância de professores, claro.
Apesar de tudo isso parecer extremamente emocionante, M. esteve quase para desistir, não fossem S. e A. a obrigarem a ir. Estavam ambas preocupadas, pois normalmente é ela sempre a mais bem disposta e a que anima tudo e todos. Claro que este comportamento tinha a sua razão de ser, já que não tinha sequer passado um mês desde a separação de R.
M. e R. tinham namorado quase três anos, e agora descobrira que os últimos seis meses tinham sido partilhados com a sua prima C.
- Ainda estás a pensar nele? –perguntou S. – Porque não o esqueces de uma vez por todas? Ele não te merecia mesmo!
- Talvez, mas sabem como eu gosto…gostava dele, e tudo isto apanhou-me de surpresa.
- Por isso insistimos tanto para vires e acho mesmo que te vais divertir muito, minha querida amiga. E sabes porquê? – disse A.
- Não. Porquê?
- Porque nós, eu e S., não viemos uma hora antes para nada e já andamos por aí a pesquisar, se é que me entendes! E consegui saber que cada carruagem leva duas escolas; e sabes quem vai na nossa?
- Não, não faço a mínima ideia!
- H.B.H. ! Voilá ! – disse A., triunfante.
- E depois?!
- E depois?! E depois!?- perguntou A. – E depois, dizes-me tu com essa indiferença! Ainda dizes que a S. é despistada. Então tu não sabes que é a única escola de toda a capital que em maioria masculina??
- Lembro-me lá disso….
- A. , tens de lhe dar um certo desconto, afinal ela esteve fora da acção durante quase três anos.
- Pois, tinha-me esquecido. Bem, mas vamos ao que interessa, vieram sete rapazes e três raparigas, não é óptimo??
- Depende dos rapazes. – disse S.
- Não os querem vir ver? Eu, por acaso, até sei onde estão.
- Por acaso! Só por um mero acaso – disse M., sorrindo. – Deixa-me só ver livre destas malas e já vamos ver esses fenómenos.
- Está certo. Vais ver como te vais sentir muito melhor depois de …
- … depois de tratar das malas?! – disse M., e todas sorriram.
Depois de terem entregue as malas no guichet, lá foram elas em direcção ao local onde supostamente estariam os tais fenómenos.
- Não dá muito nas vistas? – perguntou S.
- Não; porque as tabelas com as divisões por carruagem estão mesmo ao pé deles, e para nós sabermos qual é a nossa temos de lá ir!
- Ah! Bem, então vamos lá, e seja o que Deus quiser! "

(Continua)

domingo, janeiro 09, 2005

Cartas de Amor

"Todas as cartas de amor são Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,

Como as outras,Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,

Têm de ser Ridículas.
Mas, afinal,

Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia

Sem dar por isso
Cartas de amor Ridículas.
A verdade é que hoje

As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são Ridículas. " (Alvaro de Campos)

sábado, janeiro 08, 2005

Ontem, hoje e amanhã

"Actualmente se fala muito em adolescência, em crise adolescente. As tentativas de lançar luz sobre o fenómeno trazem consigo uma infinidade de questões, actuais e complexas, que envolvem, sobretudo, os jovens de nossa sociedade. É comum relacionarmos adolescência com drogas, sexo, educação, problemas de imposição de limites, violência, delinquência, etc. Mas afinal! O que significa adolescência? É possível uma determinação consensual a respeito desse conceito? Podemos pensar a adolescência hoje como pensávamos tempos atrás?”
Os menores de doze de hoje não são de facto os mesmo de outrora. Têm outros problemas, outras ambições, outras pressões e definitivamente outros desejos.Senão vejamos.Para quem foi menor de doze nos saudosos anos 80, a maior ambição era não perder os episódios das séries animadas que na altura nos eram apresentadas pelos 2 canais televisivos existentes, tais como “Tom Sawyer”, “Candy, Candy” ou ainda “Conan, o rapaz do futuro”. Havia ainda a questão das cadernetas de cromos alusivos às ditas séries ou mesmo os carrinhos de rolamentos. Existe ainda alguém que se lembre desses carrinhos?
Para quem é menor de doze hoje, quer viver agora o depois de amanhã, e perde por isso o talvez, momento melhor da vida de um ser humano, a altura de descobrir passo a passo todas as sensações e emoções que nos irão acompanhar até ao último dia. Mas saberão os menores de doze (e até mesmo nós), assimilar, analisar e descodificar correctamente todas essas emoções? Neste espaço que é meu, mas que no fundo é também de quem o lê, falarei também sobre estas pressões, ambições e medos. Os que foram meus (nossos) e os que hoje são de quem queremos bem. Os nossos filhos.Os filhos… bem, eu falo pela minha, os filhos serão os eternos insatisfeitos, inconstantes, exigentes, e os pais, porque serão sempre pais, mas devem recordar-se de que já foram filhos.

O que é ser menor de doze?

É um pequeno idílio cor-de-rosa… Haste de lírio frágil.
Para alguém que foi menor de doze tentará neste espaço, reviver através de cores, imagens e palavras esse tempo tão precioso que é a adolescência.
Saudosista??!! Talvez. Por vezes muito, há quem diga demais.
Mas hoje posso dizê-lo com toda a certeza que se pudesse voltar atrás faria tudo de novo.
De maneira diferente…
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